Não é sobre uma neurodivergência específica como TEA e se refere à qualquer experiência no Ensino Superior não apenas como estudante, de professor, a funcionário e visitante.
A ideia para esse tópico surgiu porque atualmente me encontro na metade da minha graduação e percebi que talvez algumas das dificuldades pelas quais passo e das quais meus colegas não compartilham têm relação com essa característica minha.
@NoahLoren degradante
A experiência metafísica de cursar a matéria Educação Inclusiva enquanto tenta lidar com a falta de inclusão no ambiente universitário.
O trauma único de assistir uma palestra sobre Transtorno do Espectro Autista em que o último palestrante, um homem que não possui neurodivergência, diz que “ama o autista, mas não amo o Autismo” tal qual um homofóbico que utiliza a religião de escudo para dizer que " ama o pecador, mas não o pecado".
E a situação ridícula de compartilhar com ê colega de classe o fato de que as pessoas que possuem um Transtorno do Neuro Desenvolvimento nascem com essa condição então não, ê sobrinhe delu não é autista porque fraturou o crânio quando ê derrubaram na primeira infância.
Ao menos o Ensino Superior me presenteou com muitas anedotas que com certeza irei passar adiante obviamente sem expor os envolvidos.
(-“”-;)
Apenas como disclaimer: oficialmente, não tenho diagnóstico nenhum, já que psiquiatras e psicólogxs nunca souberam lidar com meu mundo interior que envolve questões filosóficas e (mais recentemente) espirituais, mas sinto que sou neurodivergente, talvez AuDHD (Autista + TDAH) ou até uma condição de origem mais neurológica como Síndrome de Geschwind (embora não tenho convulsões, mas tenho auras e enxaquecas vez em quando). Até abandonei de encontrar respostas na psiquiatria e hoje faço psicanálise, porque é o que melhor lida com minhas questões e não tem preconceito com minhas “crenças atípicas” (tal como fui diagnosticado “esquizotípico” por uma das psiquiatras ao revelar minhas crenças luciferianas centradas na figura de Lilith).
Tentei, por duas vezes, graduação em Análise e Desenvolvimento de Sistemas em FATECs (Faculdade de Tecnologia, Centro Paula Souza) de duas cidades diferentes. Na primeira tranquei e posteriormente “jubilei” por conta de burnout que provocou TAG (crises de ansiedade) e posterior depressão; na segunda, após ter concluído todas as disciplinas e na já fase de elaborar o TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), desisti por completo e adotei oficialmente a condição de “superior incompleto”.
Essa minha desistência se deveu, principalmente, a uma dificuldade em acessar a pessoa orientadora, tendo eu tentado três pessoas orientadoras diferentes, nenhuma das quais atendia ou respondia às minhas tentativas de ser orientado. Por mim eu teria feito o TCC totalmente sozinho, sem orientador nem nada (até porque estou acostumado, desde o Ensino Fundamental, a fazer as coisas sozinho, até na maioria das vezes é o que prefiro), porém as regras acadêmicas são claras, eu precisava da presença dx orientadorx, sobretudo, pra autorizar o TCC e assinar como orientadorx e, ademais, o nome diz tudo: “orientadorx”, está ali para orientar, e quando não há um devido acesso a essa orientação, o TCC como dispositivo social-acadêmico está incompleto.
Antes, no decorrer do curso, eu me dava relativamente bem com colegas e professorxs, mesmo sem manter amizades; meu foco era o curso, principalmente porquanto eu estava no ambiente do campus (na verdade sempre fui sistemático assim, tentando separar profissional do pessoal; dou-me bem em equipe e consigo colaborar com equipes de qualquer tamanho, bem como tecer apresentações em público daquilo que intelectualmente/tecnicamente domino; quando estou botando a mão na massa, porém, prefiro ter a autonomia e liberdade de fazer do meu jeito, usando o que der na telha para atingir o objetivo, enquanto simultaneamente averso à mesmice/rotina; com isso, acabou que eu tenho uma deficiência em “networking profissional” e também sequer sei o que é a tal da “amizade” ou “relações humanas”).
Professores que eram conhecidamente “chatos” (como, por exemplo, um professor de Programação Linear, bem como outro de Estrutura de Dados) eram, pra mim, os melhores professores: eram tidos como chatos apenas porque não ficavam nem gostavam de papinho na sala de aula.
No “recreio” (intervalo), eu gostava ou de ficar na sala de aula estudando (parte por causa de traumas com bullying na época do Ensino Fundamental durante os recreios), ou andando pelos cantos afastados do campus enquanto eu literalmente ficava falando sozinho (ou, na verdade, falando comigo mesmo). O primeiro campus era no meio de uma área rural, então eu gostava de ficar andando no meio do matagal nos limites do terreno do campus onde não tinha absolutamente ninguém. Às vezes eu juntava-me às rodas de conversa quando eu escutava que estavam falando sobre uma vindoura prova ou seminário, mas assim que começavam com papos mais mundanos (“moto/carro”, “namoro”, “futebol/esportes”, etc), eu simplesmente virava as costas e voltava às minhas andanças pelos cantos do campus.
Talvez existam outros aspectos que esqueci de mencionar, mas basicamente essa foi minha relação com o Ensino Superior. Tenho uma carreira de praticamente dez anos em T.I. como programador/DevOps, mas hoje, desempregado e vendo os rumos preocupantes da tecnologia (a “merdificação” das coisas, como bem definido por Cory Doctorow) e desiludido com programação (ainda programo, vez em quando, mas para fins pessoais, de hobby, sem ter que atender uma “demanda”), onde diploma não é mais garantidor de carreira e ser profissional de TI hoje em dia virou ser tutorx de Claude/ChatGPT, não sei nem mais o que fazer da minha existência biológica a não ser criar artes esotéricas como venho criando (porém não penso nem quero lucrar em cima das minhas expressões artísticas, e na verdade tenho abominado cada vez mais o capitalismo e essa dependência de dinheiro para uma sobrevivência biológica que sequer consenti). Parafraseando um meme relativamente popular entre GenZ/millennials, meu plano de aposentadoria é o cemitério rs.
Cara, sinto muito. É uma porcaria quando você está tentando apenas cuidar da sua saúde e o profissional ao invés de te ajudar tenta praticar ou proselitismo das próprias crenças ou intolerância com relação às suas crenças e posições. Mas acho que você conseguiu se tornar um ser humano incrível do qual com certeza o seu eu do passado sentiria muito orgulho. Obrigado por partilhar seu relato.
@NoahLoren
É, eu posso falar como estudante e como profissional.Quando estive no curso de Computação, além da dificuldade de socialização, eu tinha muita dificuldade em entender as regras da faculdade e o que poderia ou não fazer. Eu não entendia bem qual era meu papel como aluno. Eu só ia assistir aula e fazia os trabalhos quando lembrava. Abandonei pq não entendia as disciplinas de cálculo.
Na Educação Física, eu comecei a ficar mais atento aos direitos e deveres dos alunos e professores. Também comecei a policiar a minha desorganização. Mas eu não conseguia entender porque os outros alunos (a maioria esmagadora) não valorizavam as aulas. Ninguém se interessava em prestar atenção, conversavam o tempo todo e ignoravam os pedidos dos professores. Naquela época, smartphone ainda era coisa rara. Abandonei por motivos de trabalho.
Como funcionário, além das dificuldades sociais, eu ainda sou muito rígido quando se trata de algumas regras no trabalho: para o bem e para o mal. Quando meu cérebro trava que algo tem que ser assim, fica difícil me convencer do contrário. Quando se trata de organização, isso é uma vantagem.
Depois que eu entendi a minha neurodivergência, a convivência no trabalho se tornou mais tolerável. Meus colegas dizem que sou menos estressado. Eu ainda continuo rígido com algumas regras, mas tenho tentado respeitar os meus limites e dos meus colegas.
Na Enfermagem, o último curso que entrei como estudante, tem toda uma história bem complexa… se estiver afim de ler, comenta aí que eu tento resumir.
Se você se sentir bem contando eu gostaria de ler.
Pessoalmente até agora os principais problemas que venho enfrentando é a dificuldade para criar qualquer tipo de conexão com meus colegas de classe embora consiga manter uma boa convivência e é algo que sei que é em grande parte responsabilidade minha porque eles sabem o meu nome e me reconhecem mas eu não os reconheço, eu não os abordo a menos que seja algo extremamente necessário que não seja possível para mim evitar sem correr o risco de sofrer algum tipo de consequência desagradável, apenas nesse semestre tenho tido interações mais amistosas com alguns mas não considero nenhum laço que provavelmente irá durar quando não for mais obrigatório para mim estar naquele ambiente com frequência.
Os meus professores são todos OK. Mas também não consigo me comunicar com eles. Esse é um problema que também existe em menor grau em relação aos funcionários porque no caso deles normalmente o que pergunto, raramente o faço, é algo que vejo outras pessoas também perguntando diariamente então não parece que estou fazendo eles perderem tempo com algo que não é obrigação deles e as respostas são muito mais diretas do que se tratando da maioria dos trabalhadores do local onde estudo. Mas são apenas alguns e nem sempre estão disponíveis. Juro que tentei decorar todas as siglas usadas no campus mas não consegui, o que entendo utilizo mas qualquer coisa além disso me dá medo de fazer algo errado.
É estranho porque quando envolve um assunto do qual gosto ou pelo menos domino consigo falar sobre ele durante tempo indefinido mas se tratando de dúvidas corriqueiras é quase como se fosse mudo porque as palavras simplesmente não saem e quando saem talvez tenham saído mais baixo do que deveria porque as pessoas não escutam talvez devido ao barulho ao redor então eu falo mais alto quando é possivel mas suspeito que parece que estou usando um ton desdenhoso, arrogante ou agressivo, ninguém nunca apontou isso mas tenho essa impressão.
Outro problema é o excesso de ruído e a falta de espaço, detesto escutar conversas das quais não faço parte, me pergunto porque as pessoas gostam de falar em voz alta num volume elevado? E como já sou uma pessoa desastrada um ambiente com mais pessoas e mais objetos é apenas um campo de obstáculos que para piorar se mexem!
Quando perco uma aula sobretudo no início do semestre é um problema terrível porque por não me sentir confortável para me aproximar de nenhum outro aluno não recupero o conteúdo, não consigo entender tudo o que foi comunicado no chat em grupo no WhatsApp, então as tarefas se acumulam, não entendo o conteúdo e acabo acumulando tarefas, quanto mais elas se acumulam mais me sinto indeciso entre entregá-las ou não porque não sei se ainda vale a pena, já cheguei a ser reprovado apenas por não entregar uma atividade, algo que também ocorre comigo é estar tão cansado já que passo o dia inteiro na faculdade que apenas esqueço de coisas importantes.
É irônico que ao mesmo tempo que o campus seja o lugar em que me sinto extremamente desconfortável é em sala de aula que mais aprendo porque em casa além de não ter espaço o bastante existem muitas distrações até por ser um ambiente com o qual tenho familiaridade e pelo qual posso vagar. Obviamente tenho estratégias e apesar de todos esses pontos listados sou um adulto funcional sobretudo quando as pessoas ao meu redor têm mais dificuldade e sou obrigado a ser útil para alguma coisa. Mas existem coisa que não posso controlar e que afetam o meu desempenho ao mesmo tempo que também são reações ao que vivo no dia a dia, se falho em uma matéria dependendo do meu estado não vou apenas ficar triste com isso, eu vou questionar se não vale a pena desistir, desistir não apenas da matéria mas de tudo, sou uma pessoa perfeitamente sã, com anos de acompanhamento no CAPS e com a medicação em dia mas eu só percebo após me estabilizar como alguns pensamentos e ações me causam nojo e repulsa em retrospectiva, consigo me controlar hoje e para mim é uma vitória quando evito descontar os meus problemas em pessoas que não têm nenhuma relação com o que estou sentindo ou têm mas não merecem serem desrespeitadas dessa forma além do fato de que não quero que por associação confirme estereótipos negativos sobre os grupos nos quais me incluo em minha identidade. Tenho a impressão de que se as pessoas lembram que você tem uma neurodivergência elas te lêem de uma forma diferente o que seria bom se fosse para auxiliar as pessoas neurodivergentes ou neurodiversas que precisam de determinado suporte.
@NoahLoren Curioso vc falar sobre “então eu falo mais alto quando é possivel mas suspeito que parece que estou usando um ton desdenhoso, arrogante ou agressivo, ninguém nunca apontou isso mas tenho essa impressão.”
Eu já tinha notado isso, desde muito antes de entender a neurodivergência. As pessoas sempre diziam que eu era muito grosso ou arrogante e eu não entendia o porquê.
Recentemente, um colega de aula revelou que alguns colegas ainda acham que eu sou arrogante. Esse colega específico também já me achou arrogante, mas depois mudou de opinião.
Como eu sempre fui chamado de arrogante, palestrinha, grosso e malvado, eu aprendi a explicar para as pessoas que eu tenho algum deficit na comunicação e pode parecer que eu estou sendo arrogante. Quando o assunto é mais delicado, eu começo a falar dizendo que tenho um problema de comunicação e que a pessoa precisa entender que eu não estou sendo agressivo e explico o que me motivou a falar o que pretendo falar antes de tocar no assunto que eu gostaria de tocar.
Ficou complicado esse último parágrafo, né? Exemplo: olha, eu vou te fazer uma pergunta que pode soar meio invasiva ou estranha, mas se não quiser responder, não precisa. Eu vou entender e não vou ficar com raiva. Tu lavou as mãos antes de comer?
@NoahLoren Outra coisa que faço muito, quando percebo que estou embriagado num assunto, é avisar que eu tô falando além da conta e se estiver incomodando, pode pedir pra eu parar. Eu sou bastante sincero em dizer que eu posso exagerar e não perceber e que não me incomodo se alguém apontar que eu passei da conta.
A gente percebe que isso é um problema quando não quer ser mal-educado mas acaba sendo sem ser intencional.
Acho que se agrava com a pouca interação social.
@NoahLoren
De fato, eu notei uma piora significativa depois da pandemia.Pessoal se exaltava mais facilmente comigo.



