Salve, pessoal!

Publiquei um texto novo no meu blog, o Rizomático, sobre um tema que vale a reflexão, ao menos: como a performance exagerada de papéis sociais modernos está gerando um enorme vazio existencial.

A gente vê todo dia na internet aquela positividade tóxica e a “autocomoditização”, onde a própria identidade, intimidade e emoções das pessoas viram produtos para vender ou ganhar engajamento. No texto, eu faço um paralelo com a ideia de “Má-fé” de Sartre (onde a pessoa abre mão da própria liberdade para ser um personagem que o mercado financia) e a Sociedade do Cansaço.

Link para o texto completo (13 min de leitura, tem versão em áudio lá também): https://www.rizomatico.org/o-fracasso-existencial-coachs-ceos-e-influenciadores

Até que ponto a gente também não acaba caindo nessa armadilha de roteirizar a própria vida para caber nas expectativas das redes e do mercado?

  • Eu acho que nessa má-fé foi muito acertado: esquema de pirâmide - criptomoeda - sociedade da atenção tem tudo a ver. Esse tipo de coisa é comum há algum tempo e culminou perfeitamente na criptomoeda.

    É só visitar o X pra ver: Balaji e Elon Musk falando besteira logo na capa e outros artifícios de “sonhos” financeiros.

    Quanto a parte da Sociedade do Cansaço eu não concordo. Já li a Sociedade do Cansaço e a Sociedade da Transparência, e quanto mais eu adentro esse mundo de total falta de privacidade e sem espaço pra “erros” na interpretação, mais eu entendo que não é uma sociedade onde estamos perenemente expostos, mas sim uma sociedade onde não há espaço pra não sermos nós mesmos, o que seria o contrário do que você disse.

    Imagino que o profiling que as empresas fazem exigem que a pessoa seja ela mesma o tempo todo e não que tenha escapes pra onde podem sucumbir à vida privada. Acredito que é uma certa “morte” das necessidades básicas: dormir, esquecer, … tudo isso vai embora, mas não é nada que certas camadas da sociedade já não vivessem, como insônia e outras debilidades de caráter ativo da psicologia.

    A sociedade anterior dava espaço pra desordem: o importante era poucas regras reais e mais flexibilidade pro trato humano. O empregador e os donos da sociedade aceitavam a falta de certeza em troca de um espaço cinza onde a pessoa poderia “ser o que bem entendesse”, desde que não entrasse no caminho das regras da sociedade.

    Agora com o alto nível de vigilância, isso se torno obsoleto. Os empregadores e outros líderes da sociedade querem ter certeza de tudo. Quanto menos espaço pra incerteza melhor: e isso gera essa constante necessidade de Ser, sem que possamos sucumbir à zona cinza da vida.

    • ricograca@lemmy.eco.brOP
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      8 days ago

      Que bacana! Muito obrigado pelo comentário. Suas observações são muito interessantes. Talvez, tenhamos apenas feito uma leitura a partir de perspectivas peculiares.

      Sobre a Economia da Atenção e Cripto, você tocou num ponto muito importante. A ascensão do ecossistema cripto e figuras como o Musk no X ilustram perfeitamente o “topo” dessa “má-fé” institucionalizada. É a financeirização da promessa e do engajamento. Vende-se essa caricatura do sucesso enquanto o modelo de negócios real, muitas vezes, opera na lógica de pirâmide.

      Sobre a Sociedade da Transparência e a Vigilância, a sua leitura sobre a eliminação das “zonas cinzas” e a morte do espaço privado é muito boa. O mercado de fato exige certeza absoluta,e a extinção do espaço para o erro.

      Talvez aqui seja o ponto onde nossas visões se complementam, e talvez seja o ponto chave do paradoxo que tentei explicar. E a definição do que significa esse “Ser” que somos obrigados a expor.

      Quando o mercado, através do profiling e da vigilância contínua, nos obriga a estar sempre visíveis e não nos dá espaço para viver à vida privada, ele não está nos obrigando a “sermos nós mesmos” na nossa essência existencial, que passa por nossas ambiguidades, medos e imperfeições. Pelo contrário: a exigência de transparência total força o indivíduo a performar constantemente. Como não há mais bastidores, o palco se torna a vida inteira. O algoritmo e o empregador não querem nossa autenticidade imprevisível; eles querem dados legíveis, previsibilidade e produtividade. Quando somos vigiados o tempo todo, nossa única defesa é fundir a nossa identidade com a “Persona” que também é a máscara.

      Eu concordo plenamente com você que a vigilância extirpou o nosso direito de refúgio, ao esquecimento e à zona cinza. Mas é exatamente essa superexposição que gera o cansaço. A exaustão não vem de escondermos quem somos, mas da obrigação exaustiva de transformar quem somos em um perfil métrico, otimizado e sem falhas, 24 horas por dia. O “fracasso” ocorre porque, sob o holofote constante, o humano morre e só sobra o perfil.

      Bem, ao menos, foi essa a minha leitura.