Minha mãe quer me obrigar a usar um desses na escola e na rua, e eu não quero.
Já me tratam mal só de ter tiques, imagina com o cordão de autismo?
Minha mãe quer me obrigar a usar um desses na escola e na rua, e eu não quero.
Já me tratam mal só de ter tiques, imagina com o cordão de autismo?
@MeowerMisfit817@lemmy.world @brasil@lemmy.eco.br
Não sei até que ponto sou autista; por enquanto, não fui diagnosticado como tal. Mas partilho de características comuns ao espectro: hipersensibilidade, hiper-sistematização (se pegar meu histórico aqui no Fediverso, verá como trato tudo como um “sistema a ser destrinchado” e como amo misturar áreas do conhecimento), dentre outros.
O que tive de diagnóstico foi TDAH e, recentemente, Personalidade Esquizotípica (porém, esse tem mais a ver com a psiquiatra botando minha prática ocultista no balaio de “crença atípica” num país onde cristianismo é o “normal”).
Suspeito daí, que eu seria um AuDHD (TDAH + autismo), isso se eu não tiver Síndrome de Geschwind (dada minha hiperreligiosidade e hipergrafia). O fato de estar esperando um encaminhamento ao psiquiatra há mais de um ano enquanto o CAPS não lida com meu linguajar metafísico mesmo diante de ideações suicidas, não ajuda no diagnóstico (mas duvido que um diagnóstico me ajudaria na prática). O que sei é que sou uma pessoa neurodivergente, mas qual tipo, exatamente, não sei.
Feito esse contexto, diria, com base no que eu percebo sendo também neurodivergente, é que esse mundo é hostil a nós. Sons altos sancionados por prefeitura e garantidos pela Polícia (Carnaval, para muitos, “alegria”; para nós, tortura sonora; mas os neurotípicos não estão nem aí com isso!), ambientes (online e offline) cheios de estímulos visuais (propagandas) e, principalmente, um “contrato social” onde linguagem não-verbal instintiva é parte sine qua non da interação humana (pra eles, contato visual e aperto de mãos é “confiança” e parte do requerimento; para nós, contato visual é algo que sentimos no âmago da alma que seja evitado pois os olhos são a janela da alma invadida sem consentimento quando há esse contato visual, e aperto de mãos é igualmente desconfortável se não algo totalmente sem sentido).
Por um lado, aquele cordão tenta dialogar com a linguagem não-verbal dos neurotípicos. O girassol traz uma simbologia interessante: é uma flor que constantemente tenta mirar pra luz, em meio a flores que não têm a mesma habilidade de rastreio solar.
Obviamente, o cordão é para quem sabe seu significado. Em um mundo onde as pessoas mal desconfiam que estão cercadas de símbolos (“Sinais e símbolos governam o mundo, não palavras ou leis”), a tendência é que vão ver o cordão e vão pensar “ah, elx participou de algum evento e esse cordão é pra entrada no evento” ou “elx trabalha em escritório de alguma empresa cuja marca é um girassol”. Duvido que a maioria do povo brasilero neurotípico saiba o que significa o cordão de girassol. Já ouvi casos onde nem mesmo recepcionistas em pronto-socorro respeitaram o cordão da pessoa autista e trataram-na como tratam neurotípicos.
Nesse sentido, onde a maioria não sabe o que o cordão significa, diria que não muda muita coisa. Arrisca-se de, aqueles que sabem, lhe tratarem bem ou lhe tratarem mal. No final, o uso do cordão vira loteria.