Vou esclarecer uma coisa sobre a concepção que tenho de socialismo: o comunismo que Marx & Engels vislumbraram, e que hoje é ainda mais óbvio, não romperia de jeito nenhum com a interconexão produtiva nem do tempo deles menos ainda do nosso tempo. Nenhum país desenvolvido ou “subdesenvolvido” são capazes de produzir completamente sozinhos tudo que sua população precisa. Essa profunda interdependência dos povos não é algo necessariamente negativo: ocorrendo uma revolução realmente comunista, ela não pode se fechar numa “experiência nacional” se for realmente comunista. E veja: não é questão de vontade individual ou “das lideranças”. A experiência avançar ou não pra uma revolução comunista é questão de condições materiais e subjetivas. +++
@comunismo

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    2 months ago

    @RosaLuxemburgo @austra_lopiteco @comunismo Bom dia, camaradas! Estou em outro fuso horário, por isso não pude acompanhar a conversa em tempo real, mas gostei muito de ler as suas reflexões hoje de manhã ao acordar. Acho que ter essas preocupações, e eu também as tenho, é um bom sinal, tanto de que estamos possivelmente caminhando na direção em que temos de tomar decisões quanto a isso, como de que talvez estejamos preparados pra tomar essas decisões quando chegarmos lá.

    Eu agora de manhã tenho compromissos, mas queria manter essa conversa ativa para vermos até onde podemos chegar. À tarde volto aqui para trazer um outro ponto de vista que queria compartilhar com vocês, para me dizerem o que pensam sobre isso.

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      2 months ago

      @RosaLuxemburgo @austra_lopiteco @comunismo
      Novamente a camarada Rosa toca num ponto crucial, e eu concordo que a Revolução não deveria admitir, e muito menos se apoiar na exploração dos trabalhadores. A ideia é justamente libertá-los.

      O ponto de vista que eu queria trazer sobre isso é que talvez devêssemos rever a premissa de que o desenvolvimento econômico no Estado socialista deve alcançar os mesmos índices dos Estados capitalistas, em que a exploração brutal dos trabalhadores é a regra.

      O nacionalismo, nos Estados capitalistas, associado à globalização da produção, é o que permitiu que os avanços socioeconômicos aconteçam à distância de onde se exploram os trabalhadores, e um Estado socialista não deveria almejar igualar os resultados obtidos dessa forma. +

      • Homem-Povo :v_com:@ursal.zone
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        2 months ago

        @RosaLuxemburgo @austra_lopiteco @comunismo Li em qualquer lugar que, se o nível de consumo dos EUA fosse igualado pelos demais países, nós precisaríamos de três planetas para sustentar a Terra.

        Se, portanto, o nível socioeconômico dos EUA-Europa é insustentável, devemos pensar não em formas de igualar esse padrão, mas em formas de reorganizar nossa atual produção, mesmo com o esforço laborativo que já fazemos, para que ela reverta em favor dos trabalhadores, e não seja dirigida toda para os detentores do capital.

        Eu sempre penso nos trabalhadores da indústria da construção civil, muitos dos quais vivem em casebres em situação irregular, porque o que constroem durante a jornada de trabalho não se destina a eles. +

        • Homem-Povo :v_com:@ursal.zone
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          2 months ago

          @RosaLuxemburgo @austra_lopiteco @comunismo A China, sob um partido comunista atualmente revisionista, impôs aos próprios trabalhadores um sistema exploratório e, com isso conseguiu reter dentro de suas fronteiras parte do resultado dessa exploração, que, do contrário, seria todo escoado para o centro do sistema capitalista. Só isso já melhorou muito a situação socioeconômica do país, e garantiu alguma independência, sem rompimento com o ocidente. É o que eles chamam de socialismo com características chinesas. Se em algum momento essa exploração pode ser interrompida para que possam a gozar verdadeiramente os benefícios do sucesso, é algo a se ponderar.

          Mas um socialismo com características brasileiras poderia almejar outros sucessos. +

          • Homem-Povo :v_com:@ursal.zone
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            2 months ago

            @RosaLuxemburgo @austra_lopiteco @comunismo
            Veja, a propósito, que o nosso agro é dependente de insumos importados porque se dedica à monocultura voltada para a produção de commodities destinadas à exportação. Mas podíamos almejar uma reforma agrária que invertesse essa lógica, com uma produção agroecologia descentralizada, próxima dos centros urbanos.
            Podíamos almejar a reinserção urbana das comunidades faveladas direcionando a indústria da construção civil para essas áreas.
            Podíamos almejar reduzir o número de burocratas (contadores, advogados, bancários, financiários, securitários, faria-limers, etc.) e aumentar o número de trabalhadores nas áreas da saúde e educação…
            Enfim, reorganizar a produção já resultaria em enormes benefícios, e isso certamente ganharia a simpatia do povo.

              • austra_lopiteco@ursal.zone
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                2 months ago

                @Homempovo @RosaLuxemburgo @comunismo
                Tentar colocar minha perspectiva, respondendo também a parte final desse da Rosa Luxemburgo
                https://ursal.zone/@RosaLuxemburgo/116106293150574535
                (confesso que é estranho eu “responder” algo pra Rosa 🤷‍♂️😅 ainda mais quando quem tá usando esse nick tem uma formação teórica tão sólida)
                Começar pelo que o camarada Homem Povo trouxe, todos esses avanços que tu propõe não consigo imaginar acontecendo sem ser em um processo revolucionário. E são avanços que a China conquistou (além de muitos outros). E tudo isso que tu propõe pro Brasil, é um avanço na consciência, um grau elevado, mas ainda não é o tipo de consciência que Rosa está exigindo e onde estamos divergindo. +

                (Comecei escrever algumas horas atrás, com várias pausas, então desculpa se tiver saltos de raciocínio)

                • austra_lopiteco@ursal.zone
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                  2 months ago

                  @Homempovo @RosaLuxemburgo @comunismo
                  As tarefas que uma revolução tem que empreender são contraditórias, por que nenhum país é uma ilha, e ao mesmo tempo as relações entre nações se dão por critérios e modelos capitalistas (acho que isso a gente tá de acordo). A China tem um desafio especial que é seu tamanho populacional e de diversidade cultural. E se colocou como tarefa superar a capacidade produtiva do império sem se isolar nem entrar em conflito direto. Me parece uma premissa que encaramos de forma semelhante (“toda experiência revolucionária tem de acontecer localmente, isso é inescapável. Todas tiveram um destino aprisionado ao contexto nacional, e isso não é prematuro dizer, é um fato”), ainda que possamos discordar de algumas consequências.+

                  • austra_lopiteco@ursal.zone
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                    2 months ago

                    @Homempovo @RosaLuxemburgo @comunismo
                    “O ponto de vista que eu queria trazer sobre isso é que talvez devêssemos rever a premissa de que o desenvolvimento econômico no Estado socialista deve alcançar os mesmos índices dos Estados capitalistas, em que a exploração brutal dos trabalhadores é a regra.”
                    E é uma escolha que não tem a ver só com formação/produção de consciências. Será que seria conveniente a China abandonar o desenvolvimento de IA pelo quão destrutivo ambientalmente é a tecnologia? Ou a distância tecnológica contra o império vai criar um gap intransponível?
                    Em que patamar esse debate está sendo levado lá, alguém sabe?
                    Pelo que presumo das grandes transformações, tentando manter competitividade mas reduzir impactos, me parece que eles pensam nisso. +

      • Rosa Luxemburgo :Ryyca:@ursal.zoneOP
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        2 months ago

        @Homempovo
        O ponto em que bati insistentemente é de que nosso ponto de partida não deveria ser criar um Estado socialista, pq ou é Estado ou é socialismo. Se, depois de uma revolução, o resultado for a criação de um Estado com algumas vitórias advindas da revolução, ok, lidemos com a realidade. Mas a partir do Estado não se caminha em direção ao socialismo, o que sempre acontece é o contrário.
        @austra_lopiteco @comunismo

        • Homem-Povo :v_com:@ursal.zone
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          2 months ago

          @RosaLuxemburgo @austra_lopiteco @comunismo eu leio o socialismo como a fase primitiva do comunismo, justamente aquela em que nos servimos do instrumental capitalista para nos dirigirmos para a fase superior, em que extinguimos o Estado — ou, mais precisamente, o conceito de Estado deixa de fazer sentido dentro da organização social. O Estado serve, nessa fase primitiva, para submeter os detentores dos meios de produção, e também para defesa contra interferência externa, sendo a Revolução um fenômeno necessariamente local.

          Eu entendo o ponto de vista dos camaradas anarquistas, que querem, até onde entendo, começar por extinguir o Estado, o que ao mesmo tempo deixaria desprovidos de seu instrumental opressivo os detentores do capital e alcançaria, muito mais cedo, o que nós comunistas +

          • Homem-Povo :v_com:@ursal.zone
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            2 months ago

            @RosaLuxemburgo @austra_lopiteco @comunismo entendemos como fase superior do comunismo. Mas isso é muito mais difícil de conciliar com o fato de que a Revolução será um fenômeno local, porque sem o Estado nós ficaríamos muito vulneráveis às interferências externas, e porque ficaríamos absolutamente isolados para efeito de comércio exterior, inclusive com países socialistas.

            Dito de outra forma, eu acho que o socialismo, i. e., a organização da sociedade sob um Estado transitório a caminho da sua extinção, é uma etapa necessária, ou um mal necessário, que não temos como deixar de aceitar até que o mundo inteiro esteja mais virado para lá do que para cá, se me faço entender.