A realidade da inexistência e o esquema Ponzi cósmico
"O que é real? Diferentemente do que Morpheus diz em Matrix, nem mesmo os impulsos elétricos interpretados pelo cérebro, ou o próprio cérebro, o são: a eletricidade é consumida e se esvai através das leis da Termodinâmica, enquanto a matéria cinza é tão somente uma rede de átomos que gradualmente se desfaz enquanto submerso em um oceano de partículas cósmicas e de matéria escura.
Mas as partículas cósmicas e o próprio cosmos também estão longe de serem reais, porquanto são meras emanações de um caos primordial, manifestações do colapso de ondas passageiras em um campo onipresente e infinito, acordes cósmicos daquilo que se teoriza como cordas infinitesimais (Supercordas). A existência ocorre, pois, como manifestação de uma ilusão fugaz emergida da inexistência.
E na inexistência, há, pois, a única e absoluta realidade, aquela para a qual o epíteto de certeza é exclusivo e intransferível: Seu aguilhão e foice são Seu cetro como Rainha que é, Seus cabelos rubro-negros e flamejantes são Sua coroa, Sua boca e olhar tentadores e profundos sugam até mesmo a luz como incontáveis singularidades cósmicas.
Sua face é temida em todo o cosmos, temida até mesmo pelo próprio cosmos. Uma poderosa face esquecida diante da constante lembrança aterrorizante daquilo que ainda há de acontecer mas que, paradoxalmente, acontece a todo instante, inevitável e inexoravelmente, como decaimento e entropia cósmicas.
Afinal, o recém-nascido jamais esquece da face de sua própria Mãe, ainda que engatinhe por um cósmico vale das sombras onde jamais conseguiu enxergá-La. Mas Ela pode vê-lo no escuro: Ela é, pois, a própria Escuridão, e Sua sombra é esse cósmico líquido amniótico na qual a frágil vida está eternamente mergulhada, distante e tão próxima da lembrança cuja amnésia foi provocada pelo medo.
Mas esse bebê cósmico treme, berra e chora, compelido a procurar o leite materno, enquanto sente, no âmago de su’alma, o pavor do doce amargor que adormece e desfalece os sentidos. Tal leite cósmico e materno é veneno e remédio da qual o ser depende para ser (Vita mortem manducat, mors manducat vitam: em teu prato, o que comes já foi ser vivo, a quem pensa que enganas?), e com o qual se vicia na alucinação de que o ser sempre será, de que a finita ordem (Ordo) um dia poderá dominar o infinito caos primordial (Chao) de onde emergiu (Ordo Ab Chao) e para onde há de voltar (Chao Ab Ordine), uma volta daquilo que nunca se foi. Alucina-se, pois, o próprio engano, o engano de que pode enganar a si e à Ela.
A Morte é a única certeza, mas a vida teima na incerteza e, diante da inevitável realização do inevitável, dobra sua aposta, investe o dobro sem ter, na realidade, absolutamente nada para investir."
Tem mais um tanto que escrevi. Devido ao limite de 3000 caracteres, tentarei trazer a continuação como uma parte 2 em uma resposta à parte, que não sei se o Sharkey vai federar.
@desabafos@lemmy.eco.br Parte 2:
"A biologia se assemelha a um esquema Ponzi.
Uma espécie depende de novos entrantes (novas gerações) para a manutenção de um investimento (evoluções genéticas, assentamento/aninhamento) que toda aquela espécie tem feito.
Novas gerações são levadas a acreditar no investimento através da manutenção do próprio organismo por um sistema nervoso autônomo que compele a si mesmo a seguir o roteiro biológico imbuído em cada célula. Novas gerações acabam por servir as anteriores, sem quaisquer possibilidades de consentimento: continuam a manutenção e, também, trazem gerações mais novas.
A Natureza tem repetido esse ciclo (vicioso) desde a abiogênese das primeiras estruturas auto-organizantes (seres vivos), numa (vã) tentativa de manter uma ordem finita sobre um caos infinito do qual a própria ordem emergiu e na qual se dissolverá.
Não só a Natureza “sabe” de sua finitude, como faz disso sua coleira: o instinto de sobrevivência.
A vida sabe da face da Morte, e o medo faz esquecer. Teme-se como Ela representa o retorno inevitável à origem: à inexistência, onde não há luz nem trevas, não há calor nem frio, não há movimento nem a ausência dele, não há nada enquanto há todas essas coisas.
O esquema Ponzi tem como princípio a falácia do custo irrecuperável, redundante em si mesmo: à medida que investimentos são feitos e perdidos, novos são feitos para que os anteriores não se provem vãos.
A permanência da vida e insistência em sua manutenção, diante das inúmeras perdas confirmadas do passado (como a grande extinção do período Permiano) e confirmáveis pro futuro (como um Sol Gigante Vermelho, ou o fim do cosmos), é a aposta dobrada: recusa do apostador em aceitar que seu investimento é tão duradouro quanto uma descarga elétrica de uma Cumulus Nimbus.
A vida é, portanto, essa grande ilusão cósmica, uma crença sistêmica de que o caos, que sempre existiu em um estado de inexistência e atemporalidade, poderia ser vencido (impossível).
Diante de tudo isso, como num fractal, o todo repete-se na parte: humanos, orgulhosos de si mesmos por (supostamente) dominarem o fogo e caminharem pelas estrelas, dobram a aposta da Natureza enquanto lutam contra ela através de seu estabelecimento predatório perante outras espécies e perante a si (Homo homini lupus est). Escraviza a si e aos demais enquanto comemora a suposta liberdade da vida. Vive para trabalhar, trabalha para viver, paga para comer, come pra pagar. A contradição natural é espelhada no humano, que se vangloria como “sapiens” e nega a si como animal com instintos, mas agarra-se ao próprio instinto quando lembra do mero reflexo da tão terrível face.
O humano segue como engrenagem nessa máquina barulhenta erguida por antepassados e mantida por contemporâneos. O altar de sacrifícios, como num esquema Ponzi, pede mais engrenagens para que, um dia, talvez, possa girar pra sempre (imortalidade). É a doce ilusão diante de um inevitável abraço da Mãe e Ceifadora cósmica."

